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Ney Matogrosso igual a si próprio

Ajudei a encher por completo o Coliseu do Porto a pretexto de mais um concerto de Ney Matogrosso, desta feita para apresentação do novo álbum-espectáculo “Inclassificáveis”. Para além da voz potente e dúctil que empresta às canções uma originalidade inimitável, razão mais do que suficiente, o que gosto em Ney é a genuína extravagância. O cantor brasileiro transporta para o palco todas as suas fantasias, de todas as naturezas, e partilha-as com os públicos heterogéneos que não lhe poupam aplausos. No “Inclassificáveis” ele é o que sempre foi: carnavalesco, ritualístico, tribalístico, sensual e provocatório, Ney Matogrosso faz pouco da idade e goza com as convenções e os preconceitos. Espampanante nos milhares de lantejoulas, nos penachos de pavão, nas toucas totémicas, nas saias de fiapos de contas, na roupa interior feminina, nos gestos fálicos e trejeitos lascivos, Ney demonstra um profissionalismo inatacável e couraçado que resiste, incólume, da mesma maneira, às imagens que lhe cola...

Crises...

O sr. Santos é um ouvinte assíduo do programa de rádio que costumo ajudar a fazer às sextas de manhã, emitido na região do Grande Porto. Não conheço do sr. Santos mais do que a voz, a condição de reformado e o que as opiniões que partilha nas emissões em directo me consentem intuir. No último programa o tema principal era a crise financeira mundial, mas o sr. Santos fez um desvio para abordar o tema que a actualidade tinha trazido à tona: o casamento entre homossexuais. Já nos habituámos ao pensamento conservador e sustentado na corda bamba entre valores de direita e esquerda, convertido em ondas hertzianas de forma crítica e provocatória. Mesmo assim, não raras vezes, deixa-nos embasbacados com a graça cáustica com que embrulha os comentários: - Eu, os homossexuais compreendo e aceito. Andei na tropa em África e por lá apareciam alguns rapazes que nos contavam que em crianças tinham sido abusados sexualmente. Esses eu entendo. O que não consigo compreender são os paneleiros... Depois ...

Vende-se

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Quando a curiosidade perguntava a razão para tamanho despudor a resposta recaía sempre na loucura saudável dos residentes artísticos daquela casa na zona da Ribeira no Porto. Mas agora o anúncio de venda interpela aquele suicídio sensual e, de repente, transformou a varanda numa arrojada promoção de casa de alterne de luxo ou coisa do género. É muito provável que, apesar da crise, a Susana Ribeiro, vendedora da Remax, receba por estes dias algumas propostas...

O Canto da Cultura

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A hora do almoço já estava a invadir os territórios da tarde. O apetite ameaçava transformar-se em necessidade física. Em Fafe, os restaurantes ou estavam de férias, de folga ou escondidos. Servia qualquer um. Num primeiro andar esconso vislumbrou-se a salvação num mostruário de pessoas sentadas à mesa denunciando a casa de pasto: o Canto da Cultura, lia-se com dificuldade no toldo recolhido. À entrada da escadaria a confirmação em forma de escaparate publicitário de lousa indicava o caminho. O medo da congestão provável foi mais forte que a fome...

Aquele querido mês de Agosto

Há muito tempo que não ia ao cinema sozinho. A chuva do fim de tarde alertava para a partida do verão, memória a que o título aludia, mas também avisava para a enchente do centro comercial Arrábida, onde a película ainda estava em exibição: “Aquele querido mês de Agosto”, do realizador português Miguel Gomes. Na sala estavam cinco pessoas. Mau presságio para um filme que me tinham recomendado como uma curiosidade cinematográfica. Se tivesse percebido que o filme durava 150 minutos, (duas horas e meia!!!) provavelmente teria desistido. Mesmo sabendo que, em termos de gosto, um filme é como um livro ou como um vinho, cada um aprecia à sua maneira, devo dizer que fiquei saciado. Há muito tempo que não me divertia tanto com a mistura complexa da simplicidade genuína que é o Portugal interior, captado na mais apurada essência, por uma equipa de realização que transpôs para a tela a sua própria dificuldade em levar o guião por diante. Até agora não sei se foi propositado ou não. O filme é, n...

Combustíveis

O anódino ministro da economia, Manuel Pinho, expressando-se na SIC Notícias sobre o facto dos preços dos combustíveis não acompanharem a descida do preço do petróleo nos mercados internacionais, tal como acompanharam a subida, garantiu aos cidadãos e contribuintes em geral e aos condutores em particular: - Vão descer. - Vai tu! Responderam em uníssono os preços do gasóleo e da gasolina...

Montanha russa

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A montanha russa é uma das melhores metáforas da vida. O clímax coincide com o momento em que estamos virados do avesso. A viagem dura pouco e, no final, dá vontade de comprar outro bilhete. A diferença é que, na vida, cada um vai alterando a configuração dos altos e baixos.