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Paragem de autocarro

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Quando chegou à paragem do autocarro, a caminho do emprego na fábrica de confecções, ainda não estava completamente desperta. Mas mal os olhos bateram na parede sentiu um choque que lhe acordou o corpo todo. Ele cumpriu a promessa que tinha anunciado na noite anterior, no meio do turbilhão de carícias, na penumbra da paragem do autocarro: "Amanhã vou fazer-te um convite." Foi um dia estranho. O tempo parecia uma lesma; o coração um cavalo selvagem; o pensamento uma barata tonta. No regresso a casa não saiu, como era hábito, na paragem mais próxima de casa. Foi ele que entrou no autocarro. E seguiram até ao fim da linha... (Paragem de autocarro em Sobretâmega, Marco de Canaveses)

Amo-te puta...

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A Liberdade conduzindo o povo, Eugène Delacroix, 1830 Conheci a Liberdade era eu um miúdo e ela uma jovem inocente e frágil. Acabava de ser autorizada a sair à rua depois de 48 anos de cativeiro. Esteve prisioneira da velha senhora e ninguém a viu durante esse tempo de ditadura. Foi a revolução de Abril quem lhe desembaraçou a mordaça, cortou os grilhões e a ofereceu, virgem, ao povo. Ingénua, ansiosa, vestida de coragem, a menina-mulher Liberdade logo encaixou um cravo revolucionário no talvegue dos seios e saiu à rua, guiada pelos ventos da mudança que esvoaçavam os cabelos compridos. À primeira aparição do anjo libertador apaixonei-me. Vi-a como possível mãe da democracia prematura e, num assomo de emoção, propus-lhe namoro e casamento. A Liberdade logo disse que sim, camuflando o compromisso da fidelidade na promessa de vivermos, daí em diante, felizes para sempre. Pobre de mim! A suprema excitação da Liberdade levou-a a aceitar todos os convites. Desforrou-se de uma vida ...

A construção de um sonho

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Primeiro são as vivências da infância misturadas com os anseios pueris plantados pelas circunstâncias da vida. Cresce o desejo de possuir e alimenta-se o direito a um pedaço de terra amanhada por iguais. Mudam-se os tempos, as funções e as mentalidades mas a semente serôdia continua prenhe. Materializa-se a imagem num feliz acaso geográfico e dá-se a germinação. Reserva-se o pedaço de paisagem. Logo a imaginação revolve a terra húmida, limpa as bordas, move pedregulhos, conserta os muros, reconstrói a velha casa rural, acrescenta corpos modernos. Transforma. Nascem novas linhas e formas para guardar velhas memórias. 10 anos a ver passar os invernos. Aguarda-se a primavera. Eis que o sol finalmente nasce no Marão. O rio Douro passa barrento e turvo com pressa de chegar ao Porto. O Bestança dá-lhe pinceladas de verde. A neve do Montemuro já derreteu há muito. Está na hora, que a jornada continua a ser de sol a sol. É um dia longo para construir um sonho. O sonho é um sítio onde é possív...

Marca d'água

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Imirjo no abismo. Todo eu me fundo no profundo azul do tempo. Procuro respostas na perfeição do cosmos. E o espelho devolve palavras em vez de imagens: És o melhor de mim... E permanece como marca d' água.

VALTER HUGO MÃE

Valter Hugo Mãe e " a máquina de fazer espanhóis", dois pretextos para uma reportagem na TVI

VALTER HUGO MÃE - A máquina de abanar portugueses

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O título desta entrevista foi-me dado pelo próprio Valter Hugo Mãe na dedicatória que manuscreveu num exemplar de “a máquina de fazer espanhóis”. No terceiro andar do prédio das Caxinas, onde mora, os trolhas ainda esperavam pelo sinal do escritor para que pudessem voltar ao trabalho, depois de uma trégua pedida para que a entrevista televisiva não ficasse com o fundo sonoro de martelo pneumático. A tarde escoou-se à beira-mar com o Valter Hugo Mãe, de livro na mão, a sujeitar-se a repetidos movimentos para a câmara de filmar. Tenho esta mania de tentar espreitar para os bastidores. Li, há tempos, “o remorso de baltazar serapião”. Apesar do título e assinatura do escritor aparecerem com letras minúsculas. Li-o, desconfiado e, depois, incomodado por ser preconceituoso. “A máquina de fazer espanhóis” fez o resto da transformação. Fez de mim um leitor viciado à procura dos restantes romances e da poesia de Valter Hugo Mãe (ofereceu-me a colectânea “Folclore Íntimo” que estava destinada à...

O Velho e o Mar

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O velho avançou intrépido pelo calçadão que leva ao farol. O mar ladrava arremessos furiosos contra o molhe, preso ainda à maré enchente. Sem hesitações o velho venceu a distância, num lento andar de três pernas. Chegou ao sopé do farol e subiu a custo o degrau da amurada granítica. Debruçou-se e olhou de frente o furioso monstro que se espumava contra os muros. Respingos salgados colavam-se à barba. Olhar profundo e desafiador. Um sorriso de vitória. O velho afogou as saudades do mar. E, imperturbável, virou-lhe as costas: - Até amanhã...