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Vale de Cerdeiras

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Lembra-se de me ter dito, há onze anos atrás, enquanto mudávamos de sítio as primeiras pedras, que eu nunca havia de construir aqui nada? Eu consigo rever a ambiguidade do seu rosto num sorriso de reprovação e ao mesmo tempo de orgulho, enquanto os seus olhos pediam uma reacção... Tínhamos contratado uma retro-escavadora para reconstruir as delimitações do terreno. Você era sempre assim. Mesmo não concordando com as minhas ambições e com os meus sonhos mais irreais ajudava e alinhava como se fosse a coisa mais importante a fazer. Eu sei que quando sentenciou o futuro daquele pedaço de terra pensava no melhor para mim. Nos passos largos que podiam tolher a corrida. Mas, sempre a sonhar os meus sonhos. Ele lá sabe devia dizer a si próprio quando toda a sua vida lhe dizia o contrário. Eu ouvia em silêncio, mas aquilo fazia mossa. Chegavam-se à frente as dúvidas e a falta de condições, mas à força de tanto querer resolvia acreditar que de alguma maneira havia de acontecer. Lembra-se? Faláv...

Perdido no nevoeiro

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Entre Douro e Tâmega Já o sol vai alto, mas os preguiçosos lençóis de água ocultam-se na alva cama da manhã. As margens, encostadas ao corpo líquido, como um pijama verde pintalgado de casas dispersas estão aconchegadas em espessos edredões de nevoeiro. Nas montanhas a névoa lambe as matas, e as terras queimadas dos últimos incêndios de verão, e deixa um rasto de saliva. Mais longe, os montes tingem-se de azul altivo em desgarrada com o céu. As nuvens são algodão doce pendurado nas mãos das árvores despidas. A natureza prefere o algodão em rama para curar as feridas da paisagem e esconder as crostas urbanas. Uma povoação assentou alicerces no banco do nevoeiro e flutua no branco surreal. Há um caminho para o sonho. Sinto-me divindade a levitar entre o céu e a terra, rei do tempo, escravo da beleza única, efémera, dissolúvel. Mais fotos no facebook

Baião, terra de sossego

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Quando vou a Baião, mesmo de fugida, é como se entrasse num pequeno céu. O epicentro do mundo, sempre prestes a entrar em erupção, fica a cerca de 60 quilómetros. Terra de encantos escondidos e singelos; de gente rudemente sentimental; sítio de memórias e passados. Ir a Baião, ver o Douro antes de chegar ao Porto, ver as serras à espera do Inverno, encontrar o Outono a esconder-se no nevoeiro é fazer um parêntesis nesta vida de urgências, tantas vezes desnecessárias.

Paragem do amor

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Para onde vão os amores que foram um dia? Julgo ter encontrado um sítio que é uma resposta à pergunta que Rodrigo Guedes de Carvalho faz no livro Mulher em Branco: Ficam na paragem do amor. À espera... A paragem do amor é uma vala comum de nomes gritados a várias cores, tamanhos e formas. São lamentos de quem saiu cedo ou tarde de mais. De quem chegou antes ou depois do tempo. São gemidos de quem espera por quem não vem. A paragem do amor é o apeadeiro dos que perderam a viagem. É um cemitério de metades. É a metáfora do desencontro. Os amores que já foram não vão: ficam na paragem do amor, indecisos entre o conforto do regresso e a necessidade do embarque. Entre as memórias e o esquecimento. E tu não vens... Amo-te solidão!

O dia nasceu no Cabo do Mundo

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- Bom dia. Desta vez foi ele que se antecipou no cumprimento. Apanhou-me a sair da cama da noite e despejou-me em cima a jovialidade crepuscular da madrugada. Quem lhe via a cara não podia dizer, com certeza, que estava de bom humor ou carrancudo. Era um daqueles amanheceres ambíguos que precisava de tempo para se definir. Apesar das rugas nebulosas, o mar, indiferente, ronronava ensonado. O sol esburacava cuidadosamente o horizonte com raios de um amarelo esmaecido. No Cabo do Mundo a refinaria montou pilares para que a laje de nuvens não abafasse o nascituro. - Bom dia - sussurrei. Está na hora...

Memórias submersas

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O rio Lima foi obrigado a fazer um compasso de espera em Lindoso, Ponte da Barca, em 1992, para produzir energia eléctrica. Algumas povoações ribeirinhas foram engolidas pelas águas do rio retidas na albufeira. Foi o caso de Aceredo, uma aldeia de Lobios, na Galiza. Agora, com a seca que se tem feito sentir, a albufeira desceu para níveis que já não se viam há muito tempo. As ruínas ficaram à mostra e as memórias vieram à tona. É como se fosse um cemitério de vidas a pedir uma visita. Muitos dos antigos habitantes preferem não regressar a essa sepultura aquática. E esperam que a chuva, que as nuvens anunciam, encha a albufeira em breve. O passado é pó que à água há-de voltar. Mais fotografias no facebook

Ilha dos amores

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Fontaínhas, Porto Quem foi semeado no Porto, e criou raízes por entre as ranhuras graníticas das calçadas, sabe que existem ilhas na cidade. Ficam anonimamente escondidas atrás das ruas cujo nome está pendurado na lapela dos prédios das pontas. São oásis de gente, aninhados numa pobreza vaidosa e honrada onde as carências de água, saneamento, espaço e conforto são disfarçadas com um desvelo e arrumo de fazerem inveja aos palácios das avenidas. A cidade tem vergonha das ilhas e dá mais antenção aos bairros sociais berrantes e complicados. O tempo e a cidade monstro afunda-as e devora-as lentamente. As ilhas eram lugares de partilha. De portas abertas, de vizinhanças interessadas, de brincadeiras comuns, de ajudas, de ódios e amores. Do arquipélago das Fontaínhas já pouco resta. Por isso, esta improvisada ilha dos amores mais não é do que uma homenagem póstuma a esses recantos mágicos onde o Porto fazia sentido. Ou então, mais não será do que a legenda de um dos muitos amores vadios que ...