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Descalço…sim, mas na praia!

Regresso de novo ao sr. Santos. O ouvinte do programa de rádio tem uma memória e uma experiência de vida que fazem lembrar aqueles baús à guarda de velhos sótãos. Resistentes, fascinantes, sedutoras e recheadas de histórias que serve com deleite, extasiado e irónico. Falava-se de Educação no país mas o sr. Santos encontra sempre espaço para dar a volta à marcha da conversa. Logo na primeira curva da sua intervenção telefónica falou do caso BPN. O antigo administrador do banco, Oliveira e Costa, estava a prestar declarações no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa sobre as alegadas burlas, fraudes e branqueamentos de capital, que terá dado origem à derrocada da instituição bancária, quando o sr. Santos resolveu oferecer ao auditório mais um achado do tal baú. - Conheci esse senhor ( José Oliveira e Costa) em tempos numa assembleia-geral. Nessa ocasião, para tentar sensibilizar a plateia, o homem utilizou a seguinte expressão: “Eu não me envergonho de dizer que cheguei a andar descal...

A primeira vez de Lisa Ekdahl em Portugal

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Se eu tivesse muito dinheiro contrataria a sueca Lisa Ekdahl para me adormecer nas noites mais difíceis. Não adormecia, que aquela voz que lhe sai da alma possui-nos inteiros, mas aproveitava o tempo. Como não tenho posses para tamanha extravagância vi-me na contingência de aceitar uma oferta do último bilhete, na última fila da grande sala Suggia da Casa da Música, no Porto. À minha frente mais de mil silhuetas separavam-me da campesina que entrou em palco, vestido às florinhas, chapéu de donzela, botas de jardim elegante. Disse “obrigada” e agradeceu ao público a comparência em massa na primeira vez que vem a Portugal. E cantou. Os temas do costume e alguns originais a incluir no próximo álbum. Dedicou um desses temas, “One Life”, ao novo presidente dos Estados Unidos. E cantou com aquela voz que se entranha como uma obsessão. Na descoberta do seu próprio caminho, à medida que acumula versões dos temas clássicos do jazz, vai despindo a banda de sonoridades típicas do jazz. Da bateria...

Fugiu-lhe a boca para a verdade!

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Cito o texto da Agência Lusa para tecer este comentário. «A presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, perguntou hoje se "não é bom haver seis meses sem democracia" para "pôr tudo na ordem", a propósito da reforma do sistema de justiça.» Para alguém que, na política, descobriu o silêncio como suporte de comportamento, para realçar as intervenções de fundo que entende fazer este é um deslize fatal. O sábio povo costuma dizer perante tais ocorrências: “fugiu-lhe a boca para a verdade!” Ao mesmo povo é consentida a ideia indignada de que na ditadura havia mais segurança e que o país está a precisar de um novo Salazar. É até admissível pensar que a líder da oposição, sendo de direita, apreciará a imposição das reformas mesmo contra a vontade das classes profissionais e dos interesses específicos. Só não se compreende como foi possível Manuela Ferreira Leite ter desabafado tais tendências numa daquelas raras ocasiões em que a presidente do PSD decide falar para o país. É...

Rir uns dos outros

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Há uma estranha relação entre as pequenas figuras asiáticas e as pessoas que deambulam por entre a instalação de esculturas na grande sala do Museu de Serralves. Inquietam de uma forma humana. Interpelam e parecem estar vivas. Fica a sensação de que quando se desvia o olhar elas se movem dissimuladamente. Dá vontade de ficar por ali a ouvir as conversas, aceitando o convite implícito nos sorrisos dinâmicos e nas poses amigáveis. A retrospectiva que Serralves consagrou ao artista espanhol Juan Muñoz é digna de visita prolongada. A interacção é real. Juan Muñoz morreu aos 48 anos, inesperadamente de uma hemorragia no estômago, a 28 de Agosto de 2001. Ao Porto deixou uma obra que pode ser vista no Jardim da Cordoaria – Treze a rir uns dos outros -, no âmbito da Porto 2001.

Porque não te calas, Sócrates?!!!

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Razão parece ter a oposição que vem avisando para os excessos de marketing político de que padece o governo liderado por José Sócrates. Desde vendedor de ilusões a propagandista, passando até por mentiroso, os partidos à esquerda e à direita do PS já por diversas vezes mimosearam o primeiro-ministro por causa do que consideram ser a exorbitante capacidade de anunciar actos e intenções do seu executivo. É certo que as alcunhas de vendedor de banha da cobra acabam sempre por assentar em quem está no poder, toma decisões ou promete tomar. Mas raramente o próprio as aceita como elogios à acção governativa. Ora, José Sócrates quebrou essa tradição. Embora refutando os créditos de bom publicitário a nível interno, o chefe do governo encetou uma carreira comercial internacional que o pode levar a ser convidado por uma das grandes multinacionais quando sair do governo, não tendo que aceitar um cargo na administração de alguma das maiores empresas caseiras, depósito inevitável para antigos gove...

Ney Matogrosso igual a si próprio

Ajudei a encher por completo o Coliseu do Porto a pretexto de mais um concerto de Ney Matogrosso, desta feita para apresentação do novo álbum-espectáculo “Inclassificáveis”. Para além da voz potente e dúctil que empresta às canções uma originalidade inimitável, razão mais do que suficiente, o que gosto em Ney é a genuína extravagância. O cantor brasileiro transporta para o palco todas as suas fantasias, de todas as naturezas, e partilha-as com os públicos heterogéneos que não lhe poupam aplausos. No “Inclassificáveis” ele é o que sempre foi: carnavalesco, ritualístico, tribalístico, sensual e provocatório, Ney Matogrosso faz pouco da idade e goza com as convenções e os preconceitos. Espampanante nos milhares de lantejoulas, nos penachos de pavão, nas toucas totémicas, nas saias de fiapos de contas, na roupa interior feminina, nos gestos fálicos e trejeitos lascivos, Ney demonstra um profissionalismo inatacável e couraçado que resiste, incólume, da mesma maneira, às imagens que lhe cola...

Crises...

O sr. Santos é um ouvinte assíduo do programa de rádio que costumo ajudar a fazer às sextas de manhã, emitido na região do Grande Porto. Não conheço do sr. Santos mais do que a voz, a condição de reformado e o que as opiniões que partilha nas emissões em directo me consentem intuir. No último programa o tema principal era a crise financeira mundial, mas o sr. Santos fez um desvio para abordar o tema que a actualidade tinha trazido à tona: o casamento entre homossexuais. Já nos habituámos ao pensamento conservador e sustentado na corda bamba entre valores de direita e esquerda, convertido em ondas hertzianas de forma crítica e provocatória. Mesmo assim, não raras vezes, deixa-nos embasbacados com a graça cáustica com que embrulha os comentários: - Eu, os homossexuais compreendo e aceito. Andei na tropa em África e por lá apareciam alguns rapazes que nos contavam que em crianças tinham sido abusados sexualmente. Esses eu entendo. O que não consigo compreender são os paneleiros... Depois ...