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A segunda vida de um piano centenário

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Os objetos de culto são aqueles que nos guardam lá dentro. Para além da utilidade já extinta ou não; para além do juízo estético, que varia consoante o gosto, os meus objetos de culto têm esta característica: mesmo nunca me tendo pertencido é como se sempre tivessem sido meus. É o caso do piano que acabo de acolher em minha casa. Um Ritmuller que, segundo o número de fabrico, 23408, foi construído entre 1910 e 1915. Tem mais de cem anos, portanto. Não sei tocar piano, mas sempre fiquei fascinado pela voluptuosidade da forma e pela completude versátil do som. A história que aqui conto veio dentro da meia cauda deste centenário instrumento musical.
Ao contrário do preço, o anúncio da venda do piano na internet não era atrativo. Mesmo sendo usado, as fotografias de má qualidade davam ideia de se tratar de um velho piano, talvez, em fim de vida. Combinado o encontro, num apartamento no décimo andar de um prédio da zona do Foco, no Porto, fui recebido pelo vendedor. Um homem distintamente …

Massagem

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São tuas as mãos que desvendam a orografia do meu corpo.
Imagino-as na languidez do meu descanso disfarçado de sono. Sobem, coordenadas, as montanhas suaves e moldam-se dolentemente à vista dos ombros.
Desenham-me. Escalam o pescoço para se embrenharem na floresta dos cabelos abandonados.
Sabes-me de cor e fazes questão de mostrar que conheces bem os sítios mais recônditos e secretos. Revolves as raízes dos músculos e alisas a crosta com o arado dos teus dedos.
A minha pele transforma-se em terra lisa.
Ora planas como um condor perscrutando a paisagem; ora afundas o calor das tuas mãos na minha carne fremente. Tens gestos de feiticeiro e eu corpo possuído de mulher carente.
Despes-me agora o cálice de pano que simula protecção à última fracção de intimidade. A nudez do meu corpo recebe a avidez suave das tuas mãos.
Desfruto da ondulante lavoura fingindo torpor.
Dás atenção aos meus pés esquecidos; ao lado de trás dos meus joelhos; às envergonhadas axilas; exploras o desfilade…

Nas nuvens...

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Contigo
Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada. Eugénio de Andrade




Deixa-me...

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Deixa-me que te fale desta morte por dentro.
Deste perecer lento e doloroso que nenhum consolo é capaz de suavizar. Como se fosse uma podridão viva que invade o sistema vital e o transforma numa rede de esgotos.
Desse lugar da esperança onde agora vinga um sentimento purulento, triste e destrutivo que esvazia tudo de sentido.
Deixa-me que te descreva este deserto que soterra memórias encharcadas em dor e sofrimento longo.
Sabes que algo te morre quando nada renasce nesse lugar. E pior que tudo: Sentes que fenece em ti mas está a germinar algures.
Deixa-me que te mostre a presença obsessiva desta ausência, deste vazio, desta incerteza.
É a morte como doença prolongada. Vence-te a vontade, verga-te a razão, tortura-te a memória, domina-te a imaginação, esvai-te a energia, faz-te fantasma.
Morres lentamente a desejar o grande esquecimento e só tens a dor eterna de uma parte amputada que desapareceu mas ainda existe.
Imploras uma morte súbita sem a maldição da imortalidade das record…

Tempo

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O futuro é a razão do presente.
O presente é a construção do passado.
O passado é a sustentação de tudo. Nele residem as versões que a memória guarda do que nos aconteceu.
Todo o passado é incerto.

Morte em beleza...

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Dança caprichosa de luz no palco das nuvens.
Crepúsculo orgiático de cores.
Caleidoscópio. Instante frágil.
Deslumbramento fugaz.
Noite longa.
Tristeza persistente.  Morte em beleza.





















Amo-te puta...

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A Liberdade conduzindo o povo, Eugène Delacroix, 1830

Conheci a Liberdade era eu um miúdo e ela uma jovem inocente e frágil. Acabava de ser autorizada a sair à rua depois de 48 anos de cativeiro. Esteve prisioneira da velha senhora e ninguém a viu durante esse tempo de ditadura.
Foi a revolução de Abril quem lhe desembaraçou a mordaça, cortou os grilhões e a ofereceu, virgem, ao povo. Ingénua, ansiosa, vestida de coragem, a menina-mulher Liberdade logo encaixou um cravo revolucionário no talvegue dos seios e saiu à rua, guiada pelos ventos da mudança que esvoaçavam os cabelos compridos.
À primeira aparição do anjo libertador apaixonei-me. Vi-a como possível mãe da democracia prematura e, num assomo de emoção, propus-lhe namoro e casamento.
A Liberdade logo disse que sim, camuflando o compromisso da fidelidade na promessa de vivermos, daí em diante, felizes para sempre. Pobre de mim!
A suprema excitação da Liberdade levou-a a aceitar todos os convites. Desforrou-se de um…