sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Casamento homossexual ou aborto?

Ou muito me engano ou a aprovação do projecto de lei de casamentos de pessoas do mesmo sexo em Portugal vai acabar por ser um aborto jurídico.
O artigo 13 da Constituição reza assim:

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social.


Se há direito a adoptar ou a ser adoptado então este casamento agora aprovado colide com o artigo 13.
É a nossa típica tendência para fazer tudo pela metade.
E já agora…
Porque é que os do mesmo sexo fazem questão de se encaixarem numa instituição que foi criada para unir uma mulher e um homem, preservando a espécie e fomentando a normalização social?

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

Paulo Rebelo - O profissional das apostas (notas sobre uma reportagem TVI)

Ao ler alguns dos milhares de comentários que pululam pela internet, a propósito de uma reportagem que fiz com Paulo Rebelo, um profissional de apostas on-line, que vive entre Porto, Madrid e Londres, onde se tenta explicar algumas das razões do sucesso da invulgar actividade, não consegui evitar alguns sorrisos condescendentes pelas barbaridades, conclusões e opiniões que se podem escrever. Desde a garantia de que a reportagem foi uma encomenda da casa de apostas Betfair à TVI, até aos raciocínios invejosos sobre o que consideram ser uma mentira, há de tudo. O que me admira é o interesse que a reportagem despertou na net bastando, para o confirmar, introduzir no Google as palavras "Paulo Rebelo TVI" e verificar os resultados. No site "apostaganha" o tópico relativo ao tema tem cerca de 2200 comentários.

Polémicas à parte devo dizer que a reportagem começou a desenhar-se há mais de um ano atrás por causa dos fortuitos encontros para uns jogos de futebol à noite, que juntava um grupo de amigos e amigos de amigos. Nas conversas de balneário fiquei curioso e tentei perceber porque é que Paulo Rebelo tinha que ir para Espanha para apostar on-line. Só meses depois percebi que poderia haver interesse jornalístico e, desde a proposta até à aceitação, escoou-se mais meio ano.

Levei muitas dúvidas para Madrid quando ia ao encontro do Paulo para as gravações e entrevistas. Por desconhecimento meu admiti que se tratava de um "esperto" que tinha descoberto alguma vantagem competitiva nas apostas on-line; admiti que pudesse ser um jogador com sorte; admiti que fosse uma fraude; e até admiti que pudesse não haver motivo para reportagem.

Não estava preparado para encontrar um jogador "científico". Alguém que procura todos os dias ser o melhor naquilo que faz. Um verdadeiro profissional, humilde, poupado e reservado que aceitou queimar-se nas luzes da ribalta televisiva, entre outros motivos, para poder explicar à família que a actividade que desenvolve é tão digna como outra profissão qualquer.

O Paulo Rebelo colocou algumas reservas, quer na captação de imagens quer na própria entrevista. Cedi eu e cedeu ele sem, em meu entender, comprometer o trabalho jornalístico. Não era minha intenção fazer um curso televisivo de formação em apostas on-line. Fez também algumas concessões, designadamente as imagens ao volante do Ferrari vermelho, comprado em segunda mão, em abono da ideia de sucesso que a reportagem pretendia passar.

Nunco mais me vou esquecer quando o meu interlocutor, ao cabo de três dias de trabalho conjunto, deixou escapar um brilho nos olhos ao perceber que eu tinha entendido a natureza na actividade que ele desenvolvia: "É das primeiras vezes que alguém entende o que faço, por muito que eu tente explicar..." E não vou esquecer o agradecimento do Paulo que, posteriormente à reportagem, me informou que o pai lhe tinha dito que a peça da TVI havia sido a melhor prenda que o filho lhe deu em toda a vida.

Para aqueles a quem o mundo das apostas não diz rigorosamente nada e, ainda assim, tenham assistido à reportagem talvez tenha sobrado a noção de que há pessoas que, gostando daquilo que fazem, podem ser dos melhores do mundo. Seja a jogar futebol, a treinar equipas, a escrever livros, a gerir empresas... seja a ganhar dinheiro nas apostas on-line.

Podem ter a certeza, o Paulo Rebelo é mesmo bom naquilo que decidiu fazer na vida.

quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

A poesia da obscenidade

No Púcaros acontecem coisas. Inesperadas. Divertidas. Provocatórias. Apaixonadas. Insólitas. Anedóticas. Poéticas, sobretudo poéticas. E como podem constatar há poesia em quase tudo.

domingo, 20 de Dezembro de 2009

Púcaros de Poesia

Já aqui escrevi as sensações da imersão nas noites do Púcaros onde a poesia faz de líquido vital. Agora transformei as noites poéticas do bar portuense de Miragaia em peça televisiva de jornal de grandes audiências. Para provar que as coisas simples, pequenas e essênciais também podem chegar à caixa negra por onde, dizem, só costumam passar desgraças.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Branford Marsalis tocado por Amália Rodrigues e vice-versa

O Guimarães Jazz, prestando homenagem aos 50 anos do disco “Kind of Blue” (1959) considerado o melhor do jazz, reuniu no mesmo cartaz alguns dos mais conceituados músicos a nível mundial. Jimmy Cobb, o baterista de “Kind of Blue”, abriu as portas à saudade; Hank Jones, pianista em algumas formações de Miles, foi a história em pessoa.
Em vez da saudade e da história, optei pelo futuro. Na impossibilidade de ir a todos escolhi o concerto de Brandford Marsalis Quartet. Casa cheia no Centro Cultural Vila Flor. Brandford Marsalis ofereceu generosamente os temas do último álbum “Metamorphosen”, deixando brilhar a banda.
Quero sublinhar apenas alguns gestos do saxofonista norte-americano: Foi magnânimo na duração do concerto; Tentou sempre falar português; No final presenteou a audiência com o tema “Foi Deus” de Amália Rodrigues com um solo notável de saxofone soprano, simplesmente sublinhado pelo baixo e piano; e, de saída, apresentou um medley de música do Luisiana, uma espécie de regresso a casa com um forte aroma de blues. São pequenos gestos que definem os grandes homens.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Delirante!

Vejam este sketch. Sem preconceitos. Nem formatações. É uma representação delirante de Pedro Alves (Zeca Estacionâncio) e João Paulo Rodrigues (Quim Roscas) no intragável Praça da Alegria da RTP, em Abril de 2008.
O exercício de humor desenvolvido por aquela dupla, naquela altura, tinha algumas características curiosas: a minuciosa recriação de uma localidade - Curral de Moinas -, relevando com exagero, a ruralidade com tiques de progresso adaptado; a caricaturização dos trejeitos dos piovots dos jornais televisivos; a crítica aos critérios jornalísticos através da adaptação desses critérios, vigentes no país das notícias, aos acontecimentos de Curral de Moinas; a crítica social e de costumes sempre presente no texto delirante.
Esta prova de vinhos é do melhor que se pode ver. Na net que no meio da Praça da Alegria, ou no actual formato, em horário nobre, não faz qualquer sentido.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

E à página 82 Saramago descansou!

(...) O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arreigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia de viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abrão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. (...)

O leitor leu bem. José Saramago conseguiu mandar o senhor à merda e chamar-lhe filho da puta, na página 82 do livro Caim. Depois de ter conseguido tal proeza, o vetusto escritor resolveu descansar. Estava contente com a sua obra. É certo que ainda não tinha o número de páginas suficientes para o último livro de um prémio nobel, mas o objectivo principal estava atingido.
Que Saramago não seja católico, que considere a Bíblia um manual de maus costumes, que tenha opiniões e convicções ideológicas que esbarrem na doutrina cristã, não traz mal nenhum ao mundo. O que é lamentável é o exercício pífio e rasteiro que o reputado escritor usou para parodiar o livro sagrado e promover as vendas. Confesso que esperava mais elevação e inteligência. E foi por isso que fiquei desiludido. A estrutura do livro, para além de ridicularizar as cenas bíblicas que mais lhe dão jeito, usa, para isso, um artificialismo de iniciado na literatura: as viagens na máquina do tempo. O livro arrasta-se à procura das cenas mais caricatas, usando uma argumentação digna de mentecaptos, embrulhada no discuro narrativo típico de Saramago.
Caim seria, quando muito, um bom primeiro livro de Saramago.
Por isso, perdoai-lhes senhores que ele não sabe o que escreveu...

terça-feira, 30 de Junho de 2009

Está bem assim?

Vadio e meigo. O gato siamês orfão teve a sorte de ter nascido cheio de graça. Não morreu vítima da ordem que rege a sobrevivência das espécies e foi adoptado. Inocente, retribui a ventura com uma graciosidade espontânea interagindo com os humanos como se fosse um deles. A beleza sobrevive mais ao infortúnio. Darwin devia saber disso... Quem é capaz de maltratar um olhar como este?

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Estrelas ascendentes

Cada um dos símbolos sanjoaninos cumpre uma função na noite mais longa do Porto. Não se imagina o S. João sem os ruidosos martelinhos, sem a graciosidade do alho-porro, sem os aromas do mangerico, sem o céu estrelado de balões. Não há noite de S. João sem as estrelas ascendentes que transportam os sonhos de milhares de portuenses e os incendeiam perto do céu…

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Pistoleiro Ronaldo

Ainda que a inteligência se tenha alojado nos pés de Cristiano Ronaldo não consigo descortinar a ideia que lhe passou pela cabeça quando decidiu aparecer aos jornalistas e, portanto, à Península Ibérica, com uma t-shirt com um revólver estampado. Pode pensar-se que a exibição do ícone não tem qualquer relevância, mas a teoria cai pela base quando se sabe quanto custa a utilização publicitária de um qualquer recanto do corpo do melhor jogador de futebol do mundo. Pode, de facto, não lhe ter passado nada pela cabeça e ter pegado na t-shirt armamentista que estava mais à mão. Mesmo assim, alguém do séquito de familiares e amigos devia tê-lo avisado que o símbolo não seria apropriado.
Tendo a pensar que não foi inocente. Cristiano Ronaldo, depois das aventuras na América com a Paris Hilton, resolveu vir descansar para o Algarve. Os fotógrafos e jornalistas acamparam à porta da milionária mansão à espera de novidades, incomodando a tranquilidade do craque. Depois do incómodo ter dado azo à irritação, Ronaldo decidiu aparecer, falar e chegar a acordo com os delegados dos orgãos de comunicação social para que lhe desamparassem a loja logo depois da conferência de imprensa.
A pistola estampada no peito é uma ameaça: se não cumprirem o acordo Ronaldo pode recorrer à força. Não seria sequer pioneiro. Maradona, o melhor jogador de futebol de sempre, tentou um dia afastar os jornalistas da porta da vivenda a tiros espingarda de pressão de ar.
Foto do JN

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Partido da abstenção

O dado mais interessante das eleições europeias, em Portugal, é o valor dos votos em branco: 4,63%. Mais de 160 mil eleitores deram-se ao trabalho e ao incómodo de se dirigirem à sua mesa de voto, simularem o preenchimento do boletim, com a respectiva cruzinha, e fingirem, no momento de enfiarem o voto na ranhura, que no papel dobrado estava o rabisco cruzado da escolha. Acho todo este comportamento indigno. Os eleitores merecem mais respeito. Se não fosse a obrigatoriedade deste comportamento mentiroso, muitos mais teriam votado no não voto. Por isso proponho desde já a formação de um novo partido que redima da vergonha os não votantes militantes e eleja os deputados a que tem direito: PA - PARTIDO DA ABSTENÇÃO. Afinal de contas, mesmo sem qualquer campanha, seria já a sexta força partidária do país. E tem espaço para crescer.

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Púcaros de Poesia

É um bar, em Miragaia, no Porto, e não sei porque se chama Púcaros. O nome faz lembrar, quando muito, um restaurante. A alusão ao significado copo é a ligação mais directa ao espaço nocturno. Pode ser que por aí se faça a conotação. Mas, normalmente, púcaro é um copo para tirar água. Bem, talvez aluda ao local onde se descobrem verdades escondidas, o sítio onde os nabos se tiram do púcaro, ou da púcara.
Não faço ideia porque se chama assim ainda para mais sendo um bar onde, às quartas-feiras, a poesia anda à solta pelo meio dos sentidos, sentimentos, corpos e copos...
É isso!!! Púcaros são os recipientes usados pelos estranhos seres que frequentam o bar, nesse dia, para tirar sorvos poéticos do poço da literatura. Eles são bruxas, elfos, vampiros, gnomos, ninfas, unicórnios, querubins, anjos, lobisomens e outros que tais, disfarçados de gente comum.
Eles devem ter obrigado o Carlos a chamar-lhe assim para que lhes sejam servidas as poções mágicas do pote da sangria. O Carlos é o dono do Púcaros. Um rezingão divertido que surpreende os incautos com cumprimentos brejeiros, alusões eróticas e palavrões com sotaque da Ribeira. “Onde me sento, Carlos?”, pergunto. “Alapa-te p’ra aí onde os colhões te deixarem”, responde de chofre e sublinha: "É bom sinal… é porque os tens!”. Uma capa de taberneiro com a qual esconde uma sensibilidade de leitor devotado aos poetas clientes. O Carlos é o guardião do clube dos poetas. Tem o poder de tocar a sineta com que manda calar toda a gente para que as arcadas fiquem prenhes de texto poético. Lido, declamado, interpretado, gritado, sofrido, definhado, exalado, exaurido, vomitado, disparado…o modo é o que menos interessa. Estou convencido que aqueles seres não existem de dia. Acham que pode existir alguém que escreve cartas ao primeiro-ministro e passa os dias a registar poemas dedicados às gajas boas que se sentam na esplanada do Piolho? E o declamador catastrofista que cria ambientes tétricos e quase regorgita sofrimento? E o boémio que interpreta textos em espanhol e acaba a cantar o La bohème, do Aznavour, num francês de ouvido? E o espanhol que tenta dizer poesia em português como se fosse sua a língua de Camões? E a avó, sempre impecavelmente vestida, que serve poemas como se lhe saíssem das entranhas? E o escritor erudito que escolhe os temas e espicaça os estreantes com a poetrix? E o pintor cujos retratos quase nunca saem bem? E…
Não…a mim não me enganam. Aqueles seres não existem. Estão possuídos pelo espírito livre da poesia e transformam-se, às quartas, mal toca a sineta. São, de certeza, empregados de escritório, juízes, advogados, médicos, fiscais das finanças, técnicos, empresários, vendedores…
O Púcaros é, também ele, um mutante. Ora se enfeita de antiguidades e velharias; ora se veste de exposições de pintura; ora se metamorfoseia em palco de teatro, ou em pista de dança do ventre ou de salão.
Tenho lá ido ultimamente. Observo como se estivesse num jardim zoológico em que me foi permitido entrar na jaula dos humanos. Dei por mim a zurrar poesia como se fosse um deles. E, uma destas noites, quando cheguei a casa olhei para o espelho e não me vi. Metade de mim tinha desaparecido…

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

A magia de Serralves

Serralves. Arte. Criatividade. Competência. Imaginação. Cultura. Escola. Vida.
Um filme que é um pequeno exemplo de como, na animação, se pode, e deve, aprender fazendo.
Serralves. Magia.