terça-feira, 22 de abril de 2014

Amo-te puta...

A Liberdade conduzindo o povo, Eugène Delacroix, 1830

Conheci a Liberdade era eu um miúdo e ela uma jovem inocente e frágil. Acabava de ser autorizada a sair à rua depois de 48 anos de cativeiro. Esteve prisioneira da velha senhora e ninguém a viu durante esse tempo de ditadura.
Foi a revolução de Abril quem lhe desembaraçou a mordaça, cortou os grilhões e a ofereceu, virgem, ao povo. Ingénua, ansiosa, vestida de coragem, a menina-mulher Liberdade logo encaixou um cravo revolucionário no talvegue dos seios e saiu à rua, guiada pelos ventos da mudança que esvoaçavam os cabelos compridos.
À primeira aparição do anjo libertador apaixonei-me. Vi-a como possível mãe da democracia prematura e, num assomo de emoção, propus-lhe namoro e casamento.
A Liberdade logo disse que sim, camuflando o compromisso da fidelidade na promessa de vivermos, daí em diante, felizes para sempre. Pobre de mim!
A suprema excitação da Liberdade levou-a a aceitar todos os convites. Desforrou-se de uma vida suspensa de cárcere. Cometeu todos os excessos. Foi amante de políticos, vendeu-se a demagogos, serviu radicais e fundamentalistas. E declarava-me amor, dando aparências de uma relação estável. Perdoei-lhe sempre todos os caprichos e traições por medo de a perder.
Foi nesse desvario adolescente que a conheci melhor. Sei que aprendeu com as experiências. Ficou forte e fez amizade sólida com a democracia para evitar ser, de novo, aprisionada. Cresceu. Tornou-se perita na arte do disfarce e da mentira. Sedutora, rebelde, ousada, caprichosa e ambígua.
Já perceberam? Eu sou o Povo. Bem podem dizê-lo: Enganado, servil, crédulo... Fiel.
É verdade. Eu perdoei-lhe todos os exageros e devaneios. Perdoei-lhe a repetição incessante de todas as infidelidades. Sofri de ciúmes dilacerantes quando a sabia na cama com os meus inimigos. Percebi que a Liberdade estava a crescer com todos os defeitos e vícios de uma mulher de má vida. Tornou-se numa bela quarentona: sofisticada, volúvel e lasciva.
Desde então sigo-lhe os passos como um cão mendigo. Amante compulsivo, não consigo perdê-la de vista ainda que nunca evite fazer-me sofrer. Está-lhe no sangue e na alma. Sei que vai frequentemente para a cama com a política; passa noites intensas com o mundo dos negócios; é usada em jogos sexuais na casa da justiça. E, aqui para nós que ninguém nos ouve, vende o corpo e o espírito aos poderosos.
Ofendido, traído e humilhado, às vezes no recato da intimidade, queimado pela fogueira do despeito, crivo-a de beijos e insultos.
- Sabes, Liberdade, és uma puta. Mas, eu não consigo viver sem ti…

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