Mensagens

O rio é de ouro

Imagem
Foram precisas muitas manhãs para descobrir o ouro no rio, razão para o nome por que é conhecido. Naquele improvável recomeço estava indecisa a temperatura, sem ser negativa ou positiva; o nevoeiro fantasmagorizava as encostas e cobria o céu de tule; o orvalho brincava às montanhas russas nas folhas das plantas enregeladas; o sol bocejava, ainda deitado de bruços no parapeito do monte; o rio era de ouro... Foi uma distracção da natureza, sempre tão lesta a esconder segredos. Um vislumbre de minutos deixou resplandecer aquele ouro fundido a escorrer imperceptível para a forma da albufeira. O reflexo encandeava as margens anestesiadas na poesia do fim da madrugada. Os tons aguarelados simulavam um quadro pintado pela natureza. Foi um momento até o ouro se derreter em água e as cores se tornarem vívidas e focadas. Tantas manhãs para a caça ao tesouro. Eu sei que o rio é Douro.

Vale de Cerdeiras

Imagem
Lembra-se de me ter dito, há onze anos atrás, enquanto mudávamos de sítio as primeiras pedras, que eu nunca havia de construir aqui nada? Eu consigo rever a ambiguidade do seu rosto num sorriso de reprovação e ao mesmo tempo de orgulho, enquanto os seus olhos pediam uma reacção... Tínhamos contratado uma retro-escavadora para reconstruir as delimitações do terreno. Você era sempre assim. Mesmo não concordando com as minhas ambições e com os meus sonhos mais irreais ajudava e alinhava como se fosse a coisa mais importante a fazer. Eu sei que quando sentenciou o futuro daquele pedaço de terra pensava no melhor para mim. Nos passos largos que podiam tolher a corrida. Mas, sempre a sonhar os meus sonhos. Ele lá sabe devia dizer a si próprio quando toda a sua vida lhe dizia o contrário. Eu ouvia em silêncio, mas aquilo fazia mossa. Chegavam-se à frente as dúvidas e a falta de condições, mas à força de tanto querer resolvia acreditar que de alguma maneira havia de acontecer. Lembra-se? Faláv...

Perdido no nevoeiro

Imagem
Entre Douro e Tâmega Já o sol vai alto, mas os preguiçosos lençóis de água ocultam-se na alva cama da manhã. As margens, encostadas ao corpo líquido, como um pijama verde pintalgado de casas dispersas estão aconchegadas em espessos edredões de nevoeiro. Nas montanhas a névoa lambe as matas, e as terras queimadas dos últimos incêndios de verão, e deixa um rasto de saliva. Mais longe, os montes tingem-se de azul altivo em desgarrada com o céu. As nuvens são algodão doce pendurado nas mãos das árvores despidas. A natureza prefere o algodão em rama para curar as feridas da paisagem e esconder as crostas urbanas. Uma povoação assentou alicerces no banco do nevoeiro e flutua no branco surreal. Há um caminho para o sonho. Sinto-me divindade a levitar entre o céu e a terra, rei do tempo, escravo da beleza única, efémera, dissolúvel. Mais fotos no facebook

Baião, terra de sossego

Imagem
Quando vou a Baião, mesmo de fugida, é como se entrasse num pequeno céu. O epicentro do mundo, sempre prestes a entrar em erupção, fica a cerca de 60 quilómetros. Terra de encantos escondidos e singelos; de gente rudemente sentimental; sítio de memórias e passados. Ir a Baião, ver o Douro antes de chegar ao Porto, ver as serras à espera do Inverno, encontrar o Outono a esconder-se no nevoeiro é fazer um parêntesis nesta vida de urgências, tantas vezes desnecessárias.

Paragem do amor

Imagem
Para onde vão os amores que foram um dia? Julgo ter encontrado um sítio que é uma resposta à pergunta que Rodrigo Guedes de Carvalho faz no livro Mulher em Branco: Ficam na paragem do amor. À espera... A paragem do amor é uma vala comum de nomes gritados a várias cores, tamanhos e formas. São lamentos de quem saiu cedo ou tarde de mais. De quem chegou antes ou depois do tempo. São gemidos de quem espera por quem não vem. A paragem do amor é o apeadeiro dos que perderam a viagem. É um cemitério de metades. É a metáfora do desencontro. Os amores que já foram não vão: ficam na paragem do amor, indecisos entre o conforto do regresso e a necessidade do embarque. Entre as memórias e o esquecimento. E tu não vens... Amo-te solidão!

O dia nasceu no Cabo do Mundo

Imagem
- Bom dia. Desta vez foi ele que se antecipou no cumprimento. Apanhou-me a sair da cama da noite e despejou-me em cima a jovialidade crepuscular da madrugada. Quem lhe via a cara não podia dizer, com certeza, que estava de bom humor ou carrancudo. Era um daqueles amanheceres ambíguos que precisava de tempo para se definir. Apesar das rugas nebulosas, o mar, indiferente, ronronava ensonado. O sol esburacava cuidadosamente o horizonte com raios de um amarelo esmaecido. No Cabo do Mundo a refinaria montou pilares para que a laje de nuvens não abafasse o nascituro. - Bom dia - sussurrei. Está na hora...

Memórias submersas

Imagem
O rio Lima foi obrigado a fazer um compasso de espera em Lindoso, Ponte da Barca, em 1992, para produzir energia eléctrica. Algumas povoações ribeirinhas foram engolidas pelas águas do rio retidas na albufeira. Foi o caso de Aceredo, uma aldeia de Lobios, na Galiza. Agora, com a seca que se tem feito sentir, a albufeira desceu para níveis que já não se viam há muito tempo. As ruínas ficaram à mostra e as memórias vieram à tona. É como se fosse um cemitério de vidas a pedir uma visita. Muitos dos antigos habitantes preferem não regressar a essa sepultura aquática. E esperam que a chuva, que as nuvens anunciam, encha a albufeira em breve. O passado é pó que à água há-de voltar. Mais fotografias no facebook