O PAI NATAL

A noite estava particularmente fria. O vento entranhava nos ossos um desconsolo gelado. Na rua, os néons tingiam o empedrado de azul eléctrico a enfeitar penosamente o Natal. Por baixo de uma das molduras artificiais um pai natal acabava de desistir de vender pipocas. O homem aproximou-se da carripana, que também devia servir de casa ambulante, e despiu as vestes vermelhas e o gorro que lhe davam um ar de mentiroso e oportunista. - Que pena, agora é que se lembrou de tirar a pele de pai natal. - Está a fotografar para algum jornal? Há bocado esteve aqui um senhor de uma revista a pedir-me para fazer umas fotografias, neste cenário. Não me custa nada. Mas está a tirar uns retratos para si, não é? - É, deixe lá. Eu tiro na mesma não se preocupe. Faça de conta de eu não estou aqui. - Isso é que era bom. Só cá está você e eu... - É só montar o tripé... - Não usa flash? O outro senhor usava... Olhe, eu vou ali ao carro e visto-me outra vez... - Não, não faça isso! - Está bem assim? E assim?...